24.7.06

alice pollyana e o gênio da lâmpada

olha que coisa estranha é o ser humano. quando eu saí do meu penúltimo emprego (do último "me saíram"), eu pensei em trabalhar em casa, fazendo freelas. aó o dinheiro acabou e eu fui procurar outro trabalhao. mas durou apenas seis meses. e de lá pra cá venho vivendo com freelas, o que não é muito fácil, mas vai-se levando. quer dizer, eu consegui o que queria: estar em casa, pra ficar mais com minha filha, cuidar das minhas coisas e, ao mesmo tempo, trabalhar. só que eu fiquei sempre tão preocupada com a instabilidade, com não ter uma data certa pra receber etc, etc, etc, que nem me dei conta de que, enfim, realizei um desejo. veja, bem, caro leitor, você mesmo pode estar finalmente vivendo o grande sonho da sua vida. e ele está passando batido porque você nem está olhando. está preocupado proque tudo mudou, porque as coisas são diferentes do que vc imaginou, blá-blá-blá.
alerta vermelho, queridos. a gente fica com a janela fechada, calculando perdas e danos, revirando nossos baús de casos velhos *. o gênio da lâmpada realiza nossos desejos e a gente nem tchuns.
me devolve meu lugar comum: a vida é bela. difícil. e bela. como tudo que vale a pena.
* meus agradecimentos a indiara, que cunhou esta riquíssima expressão idiomática.

16.7.06

escolhas


acabei de escrever sobre escolhas num comment para atena. e, naturalmente, acabei pensando nas minhas. quantas certas, quantas erradas. quantas verdadeiras e quantas por ilusão. não importa o tipo, a forma, nem a cor. as consequências de cada uma são todas minhas. (embora, é claro, respinguem na vida dos que me são próximos. ou inundem...)
meu lado alice pollyana sempre me diz que mesmo na pior escolha, nas mais dolorosas consequências, sempre existem lições. o melhor no pior. de tudo saímos maiores, mais fortes. meu lado rick-humphrey bogart concorda em parte. às vezes se aprende. às vezes, apenas sofre-se barbaramente, e vai-se tocando a vida, que outro jeito não há.

8.7.06

delírios


imagine que você está deitado, descansando. aí um som começa a entrar pelo seu ouvido esquerdo. segundos depois, outro som, distinto do primeiro, alcança seu ouvido direito. e outros sons vão vindo. ao mesmo tempo, há uma sensação em seus braços, outra em suas pernas. seu coração se alegra, se entristece e se angustia. seu cérebro dá voltas, diferentes sabores se fazem sentir em sua língua, cheiros diversos atraem seu nariz.
é assim que me sinto agora, nesse momento, nesses dias. se o universo conspira a meu favor; se deus me envia seus recados por mensageiros inesperados; se os anjos falam comigo em sua linguagem simbólica; se demônios me tentam sorrateiramente, tudo isso está acontecendo ao mesmo tempo. sou pouca para tantas informações. sou pequena para tantos conhecimentos. e sou ínfima para tanto merecimento. deus, o universo, os anjos e os demônios querem que eu cresça, amadureça, mude, melhore, me torne eu mesma em alto grau. ou querem outra coisa, mas que assim entendo. é tudo muito bom, muito intenso, e muito dolorido.
acho que estou recebendo uma massagem cósmica. ou enlouquecendo.

3.7.06

sol, cama e feijão

não há trégua, só luta.
não há repouso, só reparação.
a praia, o clube, o fim de semana,
tudo ilusão.
fazer amor devagarzinho, enquanto as crianças estão no vizinho.
ou correndo mais que o despertador – que amor!
o dourado do sol
esverdeando na tela do computador
numa luz branca de torturador
até que o cansaço dê o sinal – o dia acabou.
o banho que às vezes confunde : é o da noite ou da manhã?
a pasta na escova, com gosto de ontem e também de amanhã.
a semana passada
pela empregada,
desajeitando a gola, quebrando na manga,
queimando zíper, costura e botão.
e o rola, rala, rela do ônibus
a bola, o bolo, o belo do sábado,
e o tempo espremido
nos intervalos da novela,
no sonho da passarela,
na taça verde-amarela,
até que um dia desses
vai-se bater ponto no céu.

27.6.06

grata

direi o óbvio: ter amigos não tem preço. tenho poucos, muito poucos. e mais porque eles persistem, insistem em gostar de uma amiga tão ausente. (meus queridos, vocês são ótimos, mas eu sou uma amiga abaixo do sofrível...). eu sinceramente gosto dessas pessoas. apenas não consigo dizer a elas ou ser menos egoísta a ponto de lhes mostrar o quanto são valiosas pra mim.
e não sei porque não consigo. eu sei que já fui uma amiga decente em algum lugar do passado. mas aos poucos fui esquecendo como é que se troca sentimentos. fui desaprendendo esse escambo emocional. meus amigos fizeram outros amigos. eu não. apenas aprendi a conviver mais comigo que com o Outro. nas vezes em que fiz análise, quando o terapeuta perguntava qual a razão de estar ali, sempre respondi: dificuldades de relacionamento. uma amiga, certa vez, definiu bem meu problema. disse que eu sofria do efeito kolynos. cada vez que ela tentava se aproximar, baixava um escudo de proteção invisível... touché!
falo desses amigos porque recebei de todos os que leram o post anterior uma oferta de ajuda, de apoio. e aqui, detrás do meu escudo, envio a cada um um beijo carinhoso. um dia, conseguirei me desfazer dele. estarei aberta às doçuras e amargores da vida sem armaduras. espero que eles continuem tendo a infinita paciência de me esperar. e mesmo que não o façam (o que duvido), meu amor tem efeito duracell.
este não é um post de mea culpa, nem de auto-piedade. é apenas um auto-retrato.

23.6.06

Ela Christé Ké Panagiá!

alguns momentos são mais complicados que outros. esse agora tá... no limite. estou tentando segurar a onda, o maremoto. os estragos ainda são poucos e contronáveis. mas se continuar assim, não sei. o único sentimento de que tenho certeza é o de que a lição é dura, mas precisa ser aprendida. mas vamos levando, que o que importa é que a gente tem saúde. e a vida não tá fácil pra ninguém. e na vida tudo é passageiro. menos o motorista e o cobrador.

19.6.06

a justa medida

Senhor,
me ajude a ficar livre do mais ou menos.
Que eu cante ou chore,
mas que não permaneça no limbo da mediocridade.
Que eu seja gelo ou fogo,
mas que não entenda as pessoas pela metade.
Que eu seja muito feia ou menos bonita (ou o inverso, que é melhor)
mas que eu não faça do espelho minha única identidade.
Que eu dê moeda ou abraço,
mas que eu não me contente com compaixão sem atitude.
Que eu seja tudo - bom ou ruim - muito ou pouco,
mas não me permita uma vida acomodada, inerte,
indiferente, mesquinha, pequena.
Me transforme antes em flor de jardim.
Dessas que têm perfume
ou que são belas
ou que são ervas
ou que estão mortas.

17.6.06

marineuza

pego balde e vassoura. panos velhos, detergente. abro a porta e entro. os olhos se acostumam pouco a pouco à escuridão. tudo é decadência, tristeza, abandono. penso em recuar, a tarefa é por demais grandiosa. já não há mais volta. em passos lentos, mas decididos vou até a janel e puxo o velho brocado, que se desmancha em minhas mãos. a luz entra e revela os estragos. mas, afinal é dia. olho em volta. hora de começar.

16.6.06

invasores de corpos XLIII

fui invadida por um alien. pode ler de novo: a-li-en. ele está, aos poucos substituindo meus cabelos. por isso eles caem tanto, tanto, e eu nunca fico careca. porque tem um alien tomando o lugar deles, fio a fio. isso começou há uns 5 anos. bem sutil, no começo. uma leve mudança na textura. uma nova maneira de se posicionar. eu corri e cortei bem curto. achei que ia dar uma força, sabe como? e deu mesmo. o alien assumiu de vez. hoje, o que eu antes achava que eram meus cabelos tem vida própria. humores. é, sim. tem dia que está simplememente insuportável. noutros dias, irreconhecível. e há também alguns dias bons, em que eu quase acho que tudo voltou ao normal.
mas o pior eu ainda não contei. o alien está se espalhando. e começa a invadir a minha pele. vai substituí-la aos poucos por algo que vai parecer comigo, mas não serei mais eu.
se vc me encontrar e não me reconhecer, tudo bem. serei então totalmente o alien. e eu suspeito que no planeta deles não tem botox.

13.6.06

ménage-à-trois

olhe bem pra nós dois
o que virá depois,
quando o silêncio
vier de vez?

seremos os três
amantes outra vez
e nenhuma manhã será de adeus.

mas eu não quero essa coisa sem voz
eu não quero me separar de nós

vamos mandar o silêncio fazer ruído noutro lugar
vamos nos encarar
como estranhos num espelho
turistas no estrangeiro
como se estivéssemos aqui no mesmo lugar

só você e eu,
sem o silêncio pra escutar
nada de ménage-à-trois
nada de mágoas pra guardar

tudo se pode falar
uma vez.

11.6.06

artrópode

eu estava com medo. gélido, paralisante. um medo que só quem já teve síndrome do pânico, depressão, sofreu assalto à mão armada ou ouviu a sentença de um médico sobre um ente querido num corredor de hospital.
um medo de morte.
não, eu nunca mais conseguiria. não, era irreversível. não, não tinha jeito, nem choro, nem reza brava. não, eu não era mais eu. não, eu é que era mesmo assim. não, não, não, não.
mas a garra do medo não é mais dura que a do orgulho. e o medo que me puxa pra baixo nada pode contra a do orgulho que me leva pra cima. vou me ralando, me esfolando, me batendo. mas a boca do lobo já não é tão funda.
a rita bem que disse: livre-se das suas máscaras! mas seja gratas a elas. foram elas que a trouxeram até aqui.
certamente , um dia desses, já não serão mais necessárias e delas me despedirei com certo alívio, e - espero - com leveza.
hoje são um exoesqueleto: me defendem e me mantêm de pé.
e, by the way, estou sim, me sentindo um inseto. mas dos bonitinhos. e que avua...

6.6.06

mar da serenidade

é preciso não ter sonhos.
olhar horizontes é hábito crepuscular.
objetivos retos e estreitos.
únicos e particulares.
perpendiculares.

é preciso olhar à frente.
teso como um soldado raso,
lépido como o sargento.
indiferente como o cavalo.
rápido.

é preciso soltar a vida.
que ela corra como um rio,
célere.
que ela suba como a pipa,
etérea
que ela seja como é,
minha.
e válida.

meu anjo, guarda minhas ilusões em algodão, para que ao acordar eu as tenha de novo intactas e macias em minhas mãos. minhas ilusões são frágeis. mas preciso delas, ainda um tanto. amén.

28.5.06

em círculos

espero
com meu coração cultivando dúvidas,
colhendo a impaciência
que é fruto de toda espera.

espero
com a esperança dos que não crêem
- e ainda assim esperam.

espero como se todo futuro fosse amanhã,
toda solução fosse matemática,
como se espera a volta de um soldado.

a espera me ensina
as lições do desespero:
guardo os cigarros, as revistas mal-folheadas,
as mãos que não sossegam.

(de dentro da gaveta
o relógio me sussura as longas preces da agonia)

espero.

25.5.06

mantra

tudo é uma questão de manter
a mente quieta
a espinha ereta
e o coração tranquilo.

21.5.06

ela

ela está em todos os jornais
e nos livros de auto-ajuda.
ela está atrás da porta,
minha inimiga muda.

corvo que me contempla
com olhares de rapina
sereia que me seduz
e, por não ter voz, me fascina

três vezes te renego,
a cada madrugada.
até que o cantar do galo
te faça virar em nada.

um punhado de palavras.

o jardim era uma selva. aas plantas, deixadas à própria sorte, tinham crescido contentes em todas as direções. por trás de sua irreverência, a casa se erguia altaneira. uma dama escondida pelas plumas de um vestido exuberante.
o tempo vinha desenhando uma nova fachada . aqui e ali, pequenas rachaduras e uma sombra verdolenga lhe davam um ar de memória.
passar pelo jardim, subir as escadas largas até a porta alta e estreita era quase uma aventura.
mas supreendentemente a porta se abriu sem um rangido. correu suave nas dobradiças, num mudo convite: entra e devoro-te.
o som do riso atravessou o vestíbulo, chegando até a sala. quando a porta se fechou novamente, o calor da rua se foi. ali dentro era fresco como numa caverna. as janelas, mal-fechadas por persianas quebradas, pareciam olhos modorrentos a se entreabrir.
esta casa. e toda uma história.
o caminho para o sótão estava desimpedido. lá dentro, os baús. e nos baús, papéis. e fotos. e cartas. e tudo. era por ali que devia começar. e também - finalmente - terminar.

19.5.06

a criança dorme.

"Serei sempre, sob o grande pálio azul do céu mudo, pajem num rito incompreendido, vestido de vida para cumpri-lo, e executando, sem saber porquê, gestos e passos, posições e maneiras, até que a festa acabe, ou o meu papel nela, e eu possa ir comer coisas de gala nas grande barracas que estão, dizem, lá em baixo ao fundo do jardim."
(fernando pessoa, livro do desassossego, 166)
assim eu achava que seria minha vida. assim eu a rejeitava. quis não mais ser "em verso ou prosa, empregado de carteira" . quis ser mais que gato ou herói. ou antes: quis ser diferente. ainda quero. quero uma vida de verdade, em que eu saiba se é dia ou noite, se tenho fome ou sono. em que não confunda a dor da angústia com a de um infarto. em que eu saiba a diferença entre corpo e sentimentos, e possa sentir um e aceitar o outro. em que não ande sempre no piloto automático. uma vida em que o domingo seja meu e não uma disputa entre faustão e gugu. em que não esqueça o que é inesquecível.
não quero nada que outros tantos não queiram.
quero um querer comum, um sorvo de ar, uma gota de chuva, um riso.
quero ser o que não ouso ainda porque me desconheço. mas que tenho sido, ocultamente, através dos tempos.
estou em gestação. no escuro do meu próprio desassossego, nem imagino o que seja a luz. flutuo no líquido morno e nutritivo de tantas interrogações. e espero, mãe e feto, parteira e dor, tesoura e amanhã.
"Se as coisas são inatingíveis... ora! / Não é motivo para não querê-las... / Que tristes os caminhos se não fora / A mágica presença das estrelas!"
(mario quintana - espelho mágico)

18.5.06

com mil demônios

tenho ficado muito tempo em casa. tenho tido muito tempo. e não sei bem o que fazer com ele. claro que me ocupo. numa casa sempre tem mil e uma coisas pra fazer, e ainda aparecem uns freelas... mas ainda assim é muito tempo livre. pra pensar. sabe o ditado cabeça vazia, oficina do demo (ou coisa assim)? pura verdade. o demônios - no conceito grego - resolvem todos falar comigo ao mesmo tempo. e eu descobri que tenho um pra cada personalidade. (meu nome é legião...) há tempos venho tentando me imbuir do conceito budista do não-desejo. do desapego. da certeza da impermanência. mas fomos todos criados para exatamente o contrário. meus demônios me exercitam, me colocam à prova. alguns desejam o novo, o inesperado. outros desejam manter a qualquer custo uma vida que não existe mais. e há os que temem. e os que se enraivecem. e os que choram e sentem dor. mas como existem deuses, há também os que afagam e acarinham. e me guiam gentilmente - às vezes me empurram - para fora do pântano.
tenho lido muito. ler é meu refúgio. e meus demônios lêem comigo e comigo interpretam e questionam e aprendem. e se divertem também, pelo menos alguns. sabe de uma coisa? meus daemons são gente boa. talvez, não fossem eles, meus dias seriam apenas de silêncio e paz. algum tipo de morte. meus demônios me mostram que estou viva.

13.5.06

quase nada a dizer.

eu quero muito acreditar.
mas quando olho nos seus olhos
e não me vejo lá,
desisto.

10.5.06

recado de anjo

você sabe o que é um recado de anjo? é quando há algo que você precisa muito ouvir, saber, se tocar de, e aí seu anjo-da-guarda, na impossibilidade de falar por voz própria manda um recado. pode vir numa frase de um livro. numa fala de novela. num título de comercial. na voz da ana maria braga... (anjos têm um senso de humor muito sutil...).
semana passada, eu recebi um. a porta-voz foi a mãe de uma coleguinha da minha filha. uma pessoa com quem eu gosto muito de conversar, antenada, inteligente.
falávamos sobre depressão, sobre desmotivação e suicídio. e aí ela citou alguém (desculpem, não lembro). uma psicologa famosa, uma escritora... enfim...esta pessoa falava que os jovens e crianças de hoje têm mesmo que ser desmotivados. nós pais, só nos queixamos: do trabalho que é ruim; do salário que os impostos come; da violência; ; das mentiras e falsidades; das falcatruas; de todos os "não pode" que dizemos às crianças baseados nos perigos do "mundo louco" em que vivemos.
aí me diga: como é que estas crianças vão crescer apreciando a vida? pra que vão trabalhar, se o patrão é medíocre, se a empresa explora?
pra que se esforçar, se o ladrão, os impostos, a inflação levam tudo?
crescem sem lembrar que a vida tem tudo isso, e tem também um monte de coisas boas, bonitas, valiosas.
não podemos esconder a realidade dos jovens, das crianças. mas podemos mostrar que ela não tem apenas uma face. e que viver é bom e vale a pena.

não satisfeito, meu anjo mandou outro recado pra completar esse. essa música aí embaixo, cantada pelo elvis-the-pelvis (outra prova de que o bom e o ruim podem conviver bem)

I Believe

I believe for every drop of rain that falls a flower grows
I believe that somewhere in the darkest night a candle glows
I believe for everyone who goes astray someone will come to show the way
I believe, I believe
I believe above the storm the smallest prayer will still be heard

I believe that someone in the great somewhere hears every word
Every time I hear a newborn baby cry or touch a leaf or see the sky
Then I know why I believe


meu anjo tem certa tendência a polyana.
eu também.