espero
com meu coração cultivando dúvidas,
colhendo a impaciência
que é fruto de toda espera.
espero
com a esperança dos que não crêem
- e ainda assim esperam.
espero como se todo futuro fosse amanhã,
toda solução fosse matemática,
como se espera a volta de um soldado.
a espera me ensina
as lições do desespero:
guardo os cigarros, as revistas mal-folheadas,
as mãos que não sossegam.
(de dentro da gaveta
o relógio me sussura as longas preces da agonia)
espero.
28.5.06
25.5.06
21.5.06
ela
ela está em todos os jornais
e nos livros de auto-ajuda.
ela está atrás da porta,
minha inimiga muda.
corvo que me contempla
com olhares de rapina
sereia que me seduz
e, por não ter voz, me fascina
três vezes te renego,
a cada madrugada.
até que o cantar do galo
te faça virar em nada.
e nos livros de auto-ajuda.
ela está atrás da porta,
minha inimiga muda.
corvo que me contempla
com olhares de rapina
sereia que me seduz
e, por não ter voz, me fascina
três vezes te renego,
a cada madrugada.
até que o cantar do galo
te faça virar em nada.
um punhado de palavras.
o jardim era uma selva. aas plantas, deixadas à própria sorte, tinham crescido contentes em todas as direções. por trás de sua irreverência, a casa se erguia altaneira. uma dama escondida pelas plumas de um vestido exuberante.
o tempo vinha desenhando uma nova fachada . aqui e ali, pequenas rachaduras e uma sombra verdolenga lhe davam um ar de memória.
passar pelo jardim, subir as escadas largas até a porta alta e estreita era quase uma aventura.
mas supreendentemente a porta se abriu sem um rangido. correu suave nas dobradiças, num mudo convite: entra e devoro-te.
o som do riso atravessou o vestíbulo, chegando até a sala. quando a porta se fechou novamente, o calor da rua se foi. ali dentro era fresco como numa caverna. as janelas, mal-fechadas por persianas quebradas, pareciam olhos modorrentos a se entreabrir.
esta casa. e toda uma história.
o caminho para o sótão estava desimpedido. lá dentro, os baús. e nos baús, papéis. e fotos. e cartas. e tudo. era por ali que devia começar. e também - finalmente - terminar.
o tempo vinha desenhando uma nova fachada . aqui e ali, pequenas rachaduras e uma sombra verdolenga lhe davam um ar de memória.
passar pelo jardim, subir as escadas largas até a porta alta e estreita era quase uma aventura.
mas supreendentemente a porta se abriu sem um rangido. correu suave nas dobradiças, num mudo convite: entra e devoro-te.
o som do riso atravessou o vestíbulo, chegando até a sala. quando a porta se fechou novamente, o calor da rua se foi. ali dentro era fresco como numa caverna. as janelas, mal-fechadas por persianas quebradas, pareciam olhos modorrentos a se entreabrir.
esta casa. e toda uma história.
o caminho para o sótão estava desimpedido. lá dentro, os baús. e nos baús, papéis. e fotos. e cartas. e tudo. era por ali que devia começar. e também - finalmente - terminar.
19.5.06
a criança dorme.
"Serei sempre, sob o grande pálio azul do céu mudo, pajem num rito incompreendido, vestido de vida para cumpri-lo, e executando, sem saber porquê, gestos e passos, posições e maneiras, até que a festa acabe, ou o meu papel nela, e eu possa ir comer coisas de gala nas grande barracas que estão, dizem, lá em baixo ao fundo do jardim."
(fernando pessoa, livro do desassossego, 166)
assim eu achava que seria minha vida. assim eu a rejeitava. quis não mais ser "em verso ou prosa, empregado de carteira" . quis ser mais que gato ou herói. ou antes: quis ser diferente. ainda quero. quero uma vida de verdade, em que eu saiba se é dia ou noite, se tenho fome ou sono. em que não confunda a dor da angústia com a de um infarto. em que eu saiba a diferença entre corpo e sentimentos, e possa sentir um e aceitar o outro. em que não ande sempre no piloto automático. uma vida em que o domingo seja meu e não uma disputa entre faustão e gugu. em que não esqueça o que é inesquecível.
não quero nada que outros tantos não queiram.
quero um querer comum, um sorvo de ar, uma gota de chuva, um riso.
quero ser o que não ouso ainda porque me desconheço. mas que tenho sido, ocultamente, através dos tempos.
estou em gestação. no escuro do meu próprio desassossego, nem imagino o que seja a luz. flutuo no líquido morno e nutritivo de tantas interrogações. e espero, mãe e feto, parteira e dor, tesoura e amanhã.
"Se as coisas são inatingíveis... ora! / Não é motivo para não querê-las... / Que tristes os caminhos se não fora / A mágica presença das estrelas!"
(mario quintana - espelho mágico)
18.5.06
com mil demônios
tenho ficado muito tempo em casa. tenho tido muito tempo. e não sei bem o que fazer com ele. claro que me ocupo. numa casa sempre tem mil e uma coisas pra fazer, e ainda aparecem uns freelas... mas ainda assim é muito tempo livre. pra pensar. sabe o ditado cabeça vazia, oficina do demo (ou coisa assim)? pura verdade. o demônios - no conceito grego - resolvem todos falar comigo ao mesmo tempo. e eu descobri que tenho um pra cada personalidade. (meu nome é legião...) há tempos venho tentando me imbuir do conceito budista do não-desejo. do desapego. da certeza da impermanência. mas fomos todos criados para exatamente o contrário. meus demônios me exercitam, me colocam à prova. alguns desejam o novo, o inesperado. outros desejam manter a qualquer custo uma vida que não existe mais. e há os que temem. e os que se enraivecem. e os que choram e sentem dor. mas como existem deuses, há também os que afagam e acarinham. e me guiam gentilmente - às vezes me empurram - para fora do pântano.
tenho lido muito. ler é meu refúgio. e meus demônios lêem comigo e comigo interpretam e questionam e aprendem. e se divertem também, pelo menos alguns. sabe de uma coisa? meus daemons são gente boa. talvez, não fossem eles, meus dias seriam apenas de silêncio e paz. algum tipo de morte. meus demônios me mostram que estou viva.
tenho lido muito. ler é meu refúgio. e meus demônios lêem comigo e comigo interpretam e questionam e aprendem. e se divertem também, pelo menos alguns. sabe de uma coisa? meus daemons são gente boa. talvez, não fossem eles, meus dias seriam apenas de silêncio e paz. algum tipo de morte. meus demônios me mostram que estou viva.
13.5.06
quase nada a dizer.
eu quero muito acreditar.
mas quando olho nos seus olhos
e não me vejo lá,
desisto.
mas quando olho nos seus olhos
e não me vejo lá,
desisto.
10.5.06
recado de anjo
você sabe o que é um recado de anjo? é quando há algo que você precisa muito ouvir, saber, se tocar de, e aí seu anjo-da-guarda, na impossibilidade de falar por voz própria manda um recado. pode vir numa frase de um livro. numa fala de novela. num título de comercial. na voz da ana maria braga... (anjos têm um senso de humor muito sutil...).
semana passada, eu recebi um. a porta-voz foi a mãe de uma coleguinha da minha filha. uma pessoa com quem eu gosto muito de conversar, antenada, inteligente.
falávamos sobre depressão, sobre desmotivação e suicídio. e aí ela citou alguém (desculpem, não lembro). uma psicologa famosa, uma escritora... enfim...esta pessoa falava que os jovens e crianças de hoje têm mesmo que ser desmotivados. nós pais, só nos queixamos: do trabalho que é ruim; do salário que os impostos come; da violência; ; das mentiras e falsidades; das falcatruas; de todos os "não pode" que dizemos às crianças baseados nos perigos do "mundo louco" em que vivemos.
aí me diga: como é que estas crianças vão crescer apreciando a vida? pra que vão trabalhar, se o patrão é medíocre, se a empresa explora?
pra que se esforçar, se o ladrão, os impostos, a inflação levam tudo?
crescem sem lembrar que a vida tem tudo isso, e tem também um monte de coisas boas, bonitas, valiosas.
não podemos esconder a realidade dos jovens, das crianças. mas podemos mostrar que ela não tem apenas uma face. e que viver é bom e vale a pena.
não satisfeito, meu anjo mandou outro recado pra completar esse. essa música aí embaixo, cantada pelo elvis-the-pelvis (outra prova de que o bom e o ruim podem conviver bem)
I Believe
I believe for every drop of rain that falls a flower grows
I believe that somewhere in the darkest night a candle glows
I believe for everyone who goes astray someone will come to show the way
I believe, I believe
I believe above the storm the smallest prayer will still be heard
I believe that someone in the great somewhere hears every word
Every time I hear a newborn baby cry or touch a leaf or see the sky
Then I know why I believe
meu anjo tem certa tendência a polyana.
eu também.
semana passada, eu recebi um. a porta-voz foi a mãe de uma coleguinha da minha filha. uma pessoa com quem eu gosto muito de conversar, antenada, inteligente.
falávamos sobre depressão, sobre desmotivação e suicídio. e aí ela citou alguém (desculpem, não lembro). uma psicologa famosa, uma escritora... enfim...esta pessoa falava que os jovens e crianças de hoje têm mesmo que ser desmotivados. nós pais, só nos queixamos: do trabalho que é ruim; do salário que os impostos come; da violência; ; das mentiras e falsidades; das falcatruas; de todos os "não pode" que dizemos às crianças baseados nos perigos do "mundo louco" em que vivemos.
aí me diga: como é que estas crianças vão crescer apreciando a vida? pra que vão trabalhar, se o patrão é medíocre, se a empresa explora?
pra que se esforçar, se o ladrão, os impostos, a inflação levam tudo?
crescem sem lembrar que a vida tem tudo isso, e tem também um monte de coisas boas, bonitas, valiosas.
não podemos esconder a realidade dos jovens, das crianças. mas podemos mostrar que ela não tem apenas uma face. e que viver é bom e vale a pena.
não satisfeito, meu anjo mandou outro recado pra completar esse. essa música aí embaixo, cantada pelo elvis-the-pelvis (outra prova de que o bom e o ruim podem conviver bem)
I Believe
I believe for every drop of rain that falls a flower grows
I believe that somewhere in the darkest night a candle glows
I believe for everyone who goes astray someone will come to show the way
I believe, I believe
I believe above the storm the smallest prayer will still be heard
I believe that someone in the great somewhere hears every word
Every time I hear a newborn baby cry or touch a leaf or see the sky
Then I know why I believe
meu anjo tem certa tendência a polyana.
eu também.
5.5.06
as horas de solidão
o que fazer dessas horas com que a solidão me presenteia?
como brincar com todo esse silêncio?
há estrelas lá fora, há vento e grilos e tudo.
com tudo isso se poderia fazer um poema.
e no entanto eu faço perguntas.
os relógios não marcam horas
marcam o espaço, o percurso
entre o pensamento, a mão e a tecla.
nesse interlúdio
escorrego por entre as máscaras.
sou eu, aqui, sob a luz.
dou as mãos ao silêncio, me visto de solidão
e saio a brincar de roda
por entre estrelas e memórias.
como brincar com todo esse silêncio?
há estrelas lá fora, há vento e grilos e tudo.
com tudo isso se poderia fazer um poema.
e no entanto eu faço perguntas.
os relógios não marcam horas
marcam o espaço, o percurso
entre o pensamento, a mão e a tecla.
nesse interlúdio
escorrego por entre as máscaras.
sou eu, aqui, sob a luz.
dou as mãos ao silêncio, me visto de solidão
e saio a brincar de roda
por entre estrelas e memórias.
3.5.06
no risco.
nenhum sentimento é mais detonador do que o medo. é o blockbuster das emoções. faz a gente perder todas as perspectivas, ver tudo torto e flutuante. o medo incapacita até para o amor.
o medo faz odiar.
o medo faz matar.
o medo faz silenciar.
o medo faz estragos tão grandes que muita gente morre. de medo.
e o que se contrapõe a ele? a esperança? a fé? acho que só o auto-conhecimento. as certezas íntimas de que sobreviveremos. e o humor. o bom humor, o riso, desarmam o medo. impedem que ele nos torture.
falei da fé. ela também é importante. mas não a que reza e pede, mas a que confia e aguarda. (aguardar não é cruzar os braços, viu? é continuar remando, certos de que vamos chegar a algum lugar útil).
o medo é do ego. ele não quer perder, não quer abrir mão, não quer sair mal na foto.
vem de tudo que a gente não se permite ser e viver. o medo vem do hábito. a gente quer tudo igual, estável, certinho. viver no risco? nem pensar.
mas tem outro jeito de viver que não seja no risco?
enquanto escrevo, contemplo esse medo que me faz suar e tremer. que deixa as mãos molhadas e a boca seca. que me faz fechar os olhos. que me impede de dormir.
argumento comigo:
o medo me faz mono. sou estéreo.
o medo me faz 1.0. mas já estive off-road o suficiente pra saber que tenho turbo e tração nas 4 rodas.
o medo me faz 1.0. mas já estive off-road o suficiente pra saber que tenho turbo e tração nas 4 rodas.
por mais que ele seja grande, não é dois. e eu sou várias.
e, ainda assim, tenho medo.
por que escolhi diferente. porque há o feijão e há o sonho. porque meu ego é forte e a carne é fraca. porque ainda não sei se estou caindo ou voando.
2.5.06
fala, filhota!
o rancho xxx é muito bom. lá tem piquenique, casinha, tirolesa e a gente pode soltar pipa e tem piscina que a gente não pode
nadar.
(emprestei o espaço só um pouquinho pra minha filhota escrever. coruja, eeeeuuuu?)
nadar.
(emprestei o espaço só um pouquinho pra minha filhota escrever. coruja, eeeeuuuu?)
graças, são narciso!
certeza: postar vicia.
fico aqui pensando na próxima coisa, no próximo assunto, na próxima poesia, nos próximos comentários.
fico elaborando temas, fazendo frases, nas horas mais inconvenientes.
e se o trem sai do ar, é um deus-nos-acuda interno. pensamentos em polvorosa, dedos formigando (e o post? e o post?).
mas é tão bom, tão bom, tão bom...
escrever é tão bom quanto ler. e num espaço que é meu, meu, só meu, infantilmente todo meu...
ave, narciso! esta que adora o próprio blog vos saúda!
fico aqui pensando na próxima coisa, no próximo assunto, na próxima poesia, nos próximos comentários.
fico elaborando temas, fazendo frases, nas horas mais inconvenientes.
e se o trem sai do ar, é um deus-nos-acuda interno. pensamentos em polvorosa, dedos formigando (e o post? e o post?).
mas é tão bom, tão bom, tão bom...
escrever é tão bom quanto ler. e num espaço que é meu, meu, só meu, infantilmente todo meu...
ave, narciso! esta que adora o próprio blog vos saúda!
1.5.06
pipoca, silêncio e poesia.
e depois tem gente que não gosta de ler.
“ o amor que acende a lua”, de rubem alves, ed. papirus, é uma coisa.
são textos , vários, abordando diferentes temas. todos, claro, trazendo a unidade da mensagem. pra quem gosta de escrever é uma aula. frases curtas, de uma simplicidade desconcertante. pra quem gosta de ler é um achado. nestas mesmas frases, conceitos tão ricos e tão... nossos – de todo mundo. poesia em prosa.
acabo de ler dois desses textos (detesto as classificações: crônicas, artigos.... pra mim tudo é texto, desculpem-me.) um fala de pipoca. outro de escutatória, como inventou o rubem. tomo a licença de colocar aqui um trecho do texto com título “a pipoca”:
“Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz.”
No texto “escutatória”, ele fala da importância do ouvir. e da importância do silêncio. desse nem dá pra reproduzir um trecho só. esse texto me tocou profundamente. vai tão ao encontro do que penso e da minha necessidade atual de silêncio... chorei ali mesmo, na mesa da cozinha (eu tenho mania de ler enquanto como). chorei de beleza. de não conseguir conter tanta poesia, tanta verdade. chorei porque depois de ler, tive um instante mágico: vi a incrível beleza que me cerca. o vaso de plantas no passa-prato. as garrafas vazias e transparentes enfeitando minha cozinha. os momentos de silêncio operoso em que arrumei minha cama e a de minha filha, em que lavei os pratos. e tive tanta gratidão...
ainda estou sob o efeito dessa magia. nesse momento, tudo me comove. porque tudo é belo demais. e o meu cálice transborda...
(esse texto é de ontem. mas minha internet tava fora do ar...)
“ o amor que acende a lua”, de rubem alves, ed. papirus, é uma coisa.
são textos , vários, abordando diferentes temas. todos, claro, trazendo a unidade da mensagem. pra quem gosta de escrever é uma aula. frases curtas, de uma simplicidade desconcertante. pra quem gosta de ler é um achado. nestas mesmas frases, conceitos tão ricos e tão... nossos – de todo mundo. poesia em prosa.
acabo de ler dois desses textos (detesto as classificações: crônicas, artigos.... pra mim tudo é texto, desculpem-me.) um fala de pipoca. outro de escutatória, como inventou o rubem. tomo a licença de colocar aqui um trecho do texto com título “a pipoca”:
“Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz.”
No texto “escutatória”, ele fala da importância do ouvir. e da importância do silêncio. desse nem dá pra reproduzir um trecho só. esse texto me tocou profundamente. vai tão ao encontro do que penso e da minha necessidade atual de silêncio... chorei ali mesmo, na mesa da cozinha (eu tenho mania de ler enquanto como). chorei de beleza. de não conseguir conter tanta poesia, tanta verdade. chorei porque depois de ler, tive um instante mágico: vi a incrível beleza que me cerca. o vaso de plantas no passa-prato. as garrafas vazias e transparentes enfeitando minha cozinha. os momentos de silêncio operoso em que arrumei minha cama e a de minha filha, em que lavei os pratos. e tive tanta gratidão...
ainda estou sob o efeito dessa magia. nesse momento, tudo me comove. porque tudo é belo demais. e o meu cálice transborda...
(esse texto é de ontem. mas minha internet tava fora do ar...)
28.4.06
meu calhambeque, bip-bip
postar às 9h da manhã é mesmo um luxo. mas não tem a poesia da noite, claro.
li esses dias um texto da martha medeiros sobre uma mulher que procura um lugar para chorar, dentro de seu carro e não encontra onde possa estacionar. aí chora com o carro andando mesmo. dizer que o texto está bem escrito é redundância. a martha (desculpe a intimidade) é hoje minha escritora favorita. ela fala do cotidiano, nos põe pra pensar a vida em curso. nos retrata, nus e fáceis como crianças.
isso de chorar no carro é um hábito antigo meu, principalmente depois que me casei. e mais ainda depois que tive minha filha. saio pelas ruas pouco movimentadas, andando a vinte por hora, deixando vazar aquelas mágoas pequenas ou grandes que ficam pingando por dentro e terminam por sufocar. aí libero o dilúvio e a sensação de alívio é avassaladoramente boa. é uma euforia pós-parto. pra mim, que tenho tanta dificuldade de demonstrar o que sinto, são momentos preciosos. dentro do carro choro alto e soluçado, dolorida e piegasmente. tenho uma amiga que também usa este veículo (trocadalhinho...).
por isso quando passar por um carro onde uma mulher se acaba de chorar, faça cara de parede e finja que o quadro faz parte da paisagem. e, na verdade, faz. dessa paisagem onde mulheres que choram não recebem promoção (é emocionalemnte instável), geram culpa na família (olha o que você fez com a sua mãe!) ou passam por frágeis (tadinha dela, não agüenta pressão...).
se você nunca chorou no carro, experimente. e experimente também ler martha medeiros. assim até dá pra ser feliz.
25.4.06
deixai vir a mim as criancinhas. mas não agora.
em frente à mesa onde escrevo agora, pregado na parede, tem um desenho da minha filha - um que ela fez pra mim. o desenho mostra nós duas de costas para quem olha o desenho e de frente para um parque de diversões. ela aponta para uma roda-gigante e eu para uma montanha-russa. eu não levei minha filha a este parque. eu também não a levei a pelo menos 5 filmes que ela quis ver nos últimos meses. nem brinco com ela tantas vezes quantas ela pede.
fico pensando que máscaras ela construirá para se defender dos meus nãos. de que material serão feitas, para que ela enfrente os outros nãos que enfrentará pela vida. que resistência oferecerão às muitas frustrações. e quanta infelicidade também encobrirão.
fico pensando que máscaras ela construirá para se defender dos meus nãos. de que material serão feitas, para que ela enfrente os outros nãos que enfrentará pela vida. que resistência oferecerão às muitas frustrações. e quanta infelicidade também encobrirão.
um dia ela vai descobrir que muitos dos seus sorrisos, que grande parte da sua postura, que essa ou aquela indiferença não são realmente suas. são máscaras, defesas. mentiras inúteis. sei que as coisas não deviam ser assim, mas também sei que isso é usual. todos tentamos nos defender da dor desde muito cedo. alguns de dores profundas, causadas por pancadas pesadas. alguns de dores banais. mas não sei se para a criança existe diferença entre elas. chora menos a criança que não foi ao parque do que a que apanha de um pai? no mundinho delas, as dores se diferenciam? claro que não falo da dor causada pela loucura de muitos adultos, de suas paranóias e demônios, mas dessas cotidianas e comezinhas. qual é o tamanho da tragédia infantil?
tenho trabalhado - ou tentado trabalhar - com minha criança interior. ela tem uma dor tão grande que eu ainda não ousei encarar. no entanto, não tenho lembrança alguma de um fato especialemtne trágico ou doloroso na minha infância. talvez tenha tomado alguma sombra por fantasma, não sei.
e assim oscilo entre a criança que tenho dentro de mim e a que crio. ambas precisam do meu equilíbrio, da minha maturidade. e tudo que eu tenho feito é dizer não. a ambas.
de novo: culpa, culpa, mea maxima culpa.
24.4.06
pelo ouvido
fiquei sem internet outra vez. tá parecendo piada, já. uma empresa, não sei se a br telecom, teve que fazer um reparo numa central telefônica aqui perto e ligou outra linha telefônica ao meu telefone. e com a minha linha, sei lá o que aconteceu. fiquei o feriado todo sem internet e sem telefone. pode? sai, ignorância, desse país que não te pertence!!!!
enfim...
estou lendo um livro que recomendo a quem interessar possa: a fórmula da felicidade, de stefen klein, ed. sextante. não é auto-ajuda, não. é coisa séria. fala sobre como nosso cérebro aprende as coisas. e que é possível aprender a ter uma postura mais tranquila na vida. assim, ó: se vc dá muita moral pra dor, seu cérebro aprende cada vez mais a sentir dor. se vc trabalha no sentido de dar mais valor às coisas boas e prazerosas, seu cérebro vai perceber mais as coisas boas e prazerosas. (eta resuminho bão!). é por aí... vale a pena.
quando ele não me ouviu
ele me vestiu com as palavras que eu não disse.
pesadas, negras, repressoras como um burca
elas me cobriram da cabeça aos pés.
não havia ar, não havia pele.
apenas as palavras não ditas cobrindo tudo de decepção.
não chorei.
apenas recolhi-me ao serralho,
junto com as outras mulheres
a quem a estupidez condenou ao silêncio.
não desisti.
o tempo contornou meu olhos como o kajal.
e até mesmo o tecido grosso da ignorância
se desfaz ao vento.
e ao tempo marcado no meu olhar.
enfim...
estou lendo um livro que recomendo a quem interessar possa: a fórmula da felicidade, de stefen klein, ed. sextante. não é auto-ajuda, não. é coisa séria. fala sobre como nosso cérebro aprende as coisas. e que é possível aprender a ter uma postura mais tranquila na vida. assim, ó: se vc dá muita moral pra dor, seu cérebro aprende cada vez mais a sentir dor. se vc trabalha no sentido de dar mais valor às coisas boas e prazerosas, seu cérebro vai perceber mais as coisas boas e prazerosas. (eta resuminho bão!). é por aí... vale a pena.
quando ele não me ouviu
ele me vestiu com as palavras que eu não disse.
pesadas, negras, repressoras como um burca
elas me cobriram da cabeça aos pés.
não havia ar, não havia pele.
apenas as palavras não ditas cobrindo tudo de decepção.
não chorei.
apenas recolhi-me ao serralho,
junto com as outras mulheres
a quem a estupidez condenou ao silêncio.
não desisti.
o tempo contornou meu olhos como o kajal.
e até mesmo o tecido grosso da ignorância
se desfaz ao vento.
e ao tempo marcado no meu olhar.
19.4.06
o que eu sou
eu não estou sozinha.
tenho a mim mesma
eu não estou infeliz.
tenho minhas lembranças de felicidade
eu não estou derrotada.
os obstáculos à frente apenas escondem a vitória
eu não estou abandonada.
tenho um Pai que olha por mim
eu não preciso ter medo.
o pior que pode acontecer é ter que começar de novo
eu não tenho que fazer o que dizem.
por pior que possam parecer, minhas escolhas têm a marca da minha história
eu não tenho que me justificar.
assim como todos, busco meu jeito de ser feliz
eu não dependo de escoras.
minhas pernas me suportam e as nuvens me sustentam
eu não digo nada disso pra me convencer.
apenas para reconhecer o que sou sob tantas e diferentes máscaras, exigências e cobranças.
eu sou o que eu sou.
para o bem e para o mal.
(este assunto não acaba aqui. é o começo. mudar é difícil. ainda mais quando se vai contra uma maré forte de preconceitos - que também são meus. viver diferente, fazer diferente é assustador. estou tentando e as primeiras ondas estão me acertando em cheio. tento não cair. certamente cairei aqui e ali. preciso ter pernas fortes. e um coração firme. by the way, atena, você ainda tem aquela oração?)
tenho a mim mesma
eu não estou infeliz.
tenho minhas lembranças de felicidade
eu não estou derrotada.
os obstáculos à frente apenas escondem a vitória
eu não estou abandonada.
tenho um Pai que olha por mim
eu não preciso ter medo.
o pior que pode acontecer é ter que começar de novo
eu não tenho que fazer o que dizem.
por pior que possam parecer, minhas escolhas têm a marca da minha história
eu não tenho que me justificar.
assim como todos, busco meu jeito de ser feliz
eu não dependo de escoras.
minhas pernas me suportam e as nuvens me sustentam
eu não digo nada disso pra me convencer.
apenas para reconhecer o que sou sob tantas e diferentes máscaras, exigências e cobranças.
eu sou o que eu sou.
para o bem e para o mal.
(este assunto não acaba aqui. é o começo. mudar é difícil. ainda mais quando se vai contra uma maré forte de preconceitos - que também são meus. viver diferente, fazer diferente é assustador. estou tentando e as primeiras ondas estão me acertando em cheio. tento não cair. certamente cairei aqui e ali. preciso ter pernas fortes. e um coração firme. by the way, atena, você ainda tem aquela oração?)
17.4.06
e não é que eu voltei?
gente-amigos-pessoal-pessoas, tô tão feliz de voltar!!!!! mais que pinto em lixeira.
mudei de casa, de emprego - aliás de status: de empregada para desempregada. até bolo ando fazendo. escrevi pouco nessa longa temporada. e senti muito. voltei a fazer sabonetes e e espremi alguns versos. a época é de contenção. acho que ostras e gatos não gostam de mudar de casa...
mas estou feliz, a casa já tem nosso cheiro (principalmente o dos cachorros que com esta chuvarada não param secos. meu são pet-shop, olhai por nós. e não cobrai tão caro...)
a internet instalada, banda larga, adsl e tudo mais.
meu blog na rua.
meus amigos on line.
tudo certo.
voltei.
mudei de casa, de emprego - aliás de status: de empregada para desempregada. até bolo ando fazendo. escrevi pouco nessa longa temporada. e senti muito. voltei a fazer sabonetes e e espremi alguns versos. a época é de contenção. acho que ostras e gatos não gostam de mudar de casa...
mas estou feliz, a casa já tem nosso cheiro (principalmente o dos cachorros que com esta chuvarada não param secos. meu são pet-shop, olhai por nós. e não cobrai tão caro...)
a internet instalada, banda larga, adsl e tudo mais.
meu blog na rua.
meus amigos on line.
tudo certo.
voltei.
6.3.06
bonitinha e ordinária
já que toda a minha vida
agora está em caixas
decidi guardar também
numa caixa
meus pensamentos.
ficou mais pesada que as caixas de livros,
que a dos computadores,
que a dos pirex santa marina.
a solução foi simples:
pintei de mais loiros os meus cabelos.
agora, minha caixa é um balão...
(saudade de vocês, amigos. de todos. até dos que não fiz)
agora está em caixas
decidi guardar também
numa caixa
meus pensamentos.
ficou mais pesada que as caixas de livros,
que a dos computadores,
que a dos pirex santa marina.
a solução foi simples:
pintei de mais loiros os meus cabelos.
agora, minha caixa é um balão...
(saudade de vocês, amigos. de todos. até dos que não fiz)
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