10.2.09

coisa de gente doida

fui dar uma volta no blog. brincar de túnel do tempo. gozado, se eu invertesse e colocasse o que escrevi no começo agora, estava bom. daí começo um bate-boca infrutífero com meus botões sobre se não estou andando em círculos. bom, pode ser que eu seja tão fantástica que tenha aquela coisa atemporal dos bons escritores. rá-rá-rá! (que delícia se eu fosse mesmo assim convencida...). por outro lado fico pensando: a gente cresce, amadurece, muda, desmuda... mas nossa maneira de sentir, muda também? claro que tem umas besteiras que deixamos pra lá, roupa que nem serve mais. emoções prescritas, sentimentos com data de validade vencida, vamos jogando esse lixo fora (sinal nº 1 de que a maturidade nos ronda). mas... a guia dos sentimentos, a linhagem das emoções, os trilhos desse trem... será que se alteram? limpe o supérfluo e me diga: a sensação do primeiro beijo numa pessoa desejada é diferente aos 20, aos 50? o frio na barriga é mais... adulto?
acho que todo mundo muda, sim. mas no raso, somos o que fomos. mais burilados.
(aí entra o caetano implícito e tasca logo um ou não...)

6.2.09

não há o que não haja.

o mundo é mesmo muito doido e
a vida, sempre uma novidade.
uma amiga, risadas, colo e choro...
pronto!
o mundo pra mim agora
dá pé.
de novo.

(grazie, bella)

5.2.09

ao que não é visto

e tem essa outra que não sabe onde põe as mãos
quando as coloca sobre a mesa
e que chora no velório das memórias,
essa outra que se disfarça e mastiga as lágrimas
(porque é feio chorar em público)
e as engole, até que voltem em refluxo.
essa outra sem compostura,
que se envergonha das palavras ditas
porque esperadas,
que guarda aquelas que derreteriam as geleiras
apenas por ser o frio gelo guardião do medo alheio.
essa outra que olha tanto
que vezes sem conta teve seus olhos vendados
por serem tão invasivos e intensos
quanto as tolas armas nucleares.
essa outra que não aparece,
a não ser como fazem as almas penadas,
para os que têm o misterioso dom
de enxergar
uma tão outra realidade.

o último cigarro


sobre a mesa branca, um cinzeiro pousa
à espera da próxima cinza fumada em silêncio.
um cigarro que ocupa a mão e a mente,
na noite passada entre uísques vazios.
por mais que pareça trágico, não me angustia.
aquele cinzeiro ainda vai achar companhia.
retratos de vida roubados ao tempo,
pequenas janelas de alegria.
e as mãos que se ocupam em fabricar cinzas de pensamentos
ainda vão estar ocupadas, construindo sentimentos.

13.11.08

pequenas coisas

se eu pudesse parar um pouco

descer um pouco

sorrir um pouco

aliviada

se eu pudesse escrever recados

com destinatários

se eu pudesse sair na chuva

escolher a fruta

esconder as farpas

estender as roupas

lavar os vidros

das pequenas janelas

se eu pudesse sussurrar encantos

revolver a terra

plantar meu fado

recolher as pérolas

e amar os porcos

se eu pudesse perdoar um pouco

descansar um pouco

dormir de leve

acordar baixinho

devagarinho

e para sempre.

só um pouco.

12.10.08

quando eu não estava olhando

a paisagem mudou, era já outro cenário.
eu não vi.
as notas eram outras, como eram novas as vozes.
cabelos brancos, uma ligeira barriguinha.
eu não vi. onde eu estava?
foi como perder aquela parte essencial do filme, a hora da revelação:
quem matou odete roitman?
agora, o frio nos ossos
me cantarola chico buarque...
já passou, já passou...
e foi justamente
quando eu não estava olhando.

28.7.08

ao senhor dos jardins


ensina-me, senhor, a viver a vida das borboletas,
a ter a calma paciência das lagartas que se enrolam
voluntárias em casulos de escuridão.
proteja-me da ânsia pelo movimento
que me impeça de cumprir o tempo da mutação.
permita, então, que eu perceba o soar da hora
de romper liames e aceitar minhas asas em sua completa extensão.
guia-me pelo mundo das cores,
provê-me da alegria da impermanência
que será - e só ela - meu alimento sagrado.
ensina-me, com teu amor, a viver a intensa beleza do efêmero,
a fartar-me da delícia de cada momento,
como se fossem todos eles um sinal de eternidade.
e quando se acabe este dia, leve e tranquilo como anoitecer ou
em dor e medo como o fim do amor,
dá-me a sabedoria de abandonar as velhas asas,
descer ao solo e,
humildemente, retomar o caminho da lagarta,
até que o cansaço me conduza de novo ao casulo
onde a vida trabalha silenciosa e obscura
para entregar-me ainda outra vez
as asas da plenitude.

pintados

olho para o armário
fechado
vermelho, brilhante,
mogno aviltado.
guarda roupas, sapatos,
contas, cabides vazios
dependurados.
como eu guardo
máscaras, sorrisos,
silêncio, carinhos
não levados.
eu e o armário,
fechados, guardamos o que nos é de direito.
ele - madeira
eu - madura
nós dois - pintados.
guardo no armário minhas tralhas.
e eu, são de quem as que guardo?

19.4.08

dor antiga

pra que sofrer
por uma dor que não vai
parar de doer

falar mal pra quê?
chorar não faz sentido
é uma coisa antiga
vai parar pra sofrer, por quê?


fica lá, fica lá
e não há o que fazer
é uma dor, só uma dor
então deixa doer

vai chegar um dia
em que a dor vai cansar de ficar
nessa casa vazia,
sem par,
vai cansar de doer sozinha

nesse dia, ela vai abrir a porta
vai deixar a ferida morta
vai virar cicatriz,
que importa
se agora ela dói tão quieta
amanhã vai deixar deserta
a paisagem do meu coração

e a chuva de pranto
que lava tudo
no meu chão vai penetrar bem fundo
e fazer brotar um jardim

me perdoa, então, mestre Cartola,
se suas rosas não falam
as minhas, elas não se calam
e vão falar de poesia e amanhã

mas hoje eu apenas me digo
nem toda dor é castigo
é uma dor, só uma dor
então deixa doer .

5.4.08

promessas antigas

ficam guardadas em barris de carvalho,
do tempo pegam um sabor quase cálido
falam baixinho palavras macias
e embriagam em leve euforia
promessas antigas têm mais valor
não são mais vazias,
destilam calor.
encho meu copo
e te sacio.
na tua, a minha boca
devora o vazio.

10.2.08

como quase sempre


digo sempre quase nunca
e raramente
acredito no infinito

sou da terra e do ar
opostos que se atraem
com a tranquilidade
de quem confia
na teoria da relatividade.

nesse momento a vida
passa em ritmo bossa nova
e joão gilberto me sussurra
esperanças de azul

quase nunca é por enquanto
advérbio de credibilidade
atemporal
como a rolleiflex
que me revelou
sua enorme
imensidão.

e a física me explica
o vazio entre dois corpos
e como é que pode:
o barquinho vai
se a tardinha cai...

7.9.07

sonhos

um sonho numa caixa
como jóia preciosa
para ser vista e nunca usada...
um sonho de vitrine
para ser admirado, desejado,
nunca vivido, nem realizado...

sonhos, bolhas de sabão.

vivê-los é matá-los?
ou lhes dar vida é que é viver?

rsssrsrssrs...
sei as respostas que meus amigos vão me dar.
rsrsrsrsrsrsr..........

27.8.07

momento mulherzinha

rosas

ana carolina
composição: totonho villeroy


você pode me ver
do jeito que quiser
eu não vou fazer esforço
prá te contrariar
de tantas mil maneiras
que eu posso ser
estou certa que uma delas
vai te agradar...
porque eu sou feita pro amor
da cabeça aos pés
e não faço outra coisa
do que me doar
se causei alguma dor
não foi por querer
nunca tive a intenção
de te machucar...
porque eu gosto é de rosas
e rosas, de rosas
acompanhadas de um bilhete
me deixam nervosa...
toda mulher gosta de rosas
e rosas, de rosas
muitas vezes são vermelhas
mas sempre são rosas...
se teu santo por acaso
não bater com o meu
eu retomo o meu caminho
e nada a declarar
meia culpa cada um
que vá cuidar do seu
se for só um arranhão
eu não vou nem soprar...
porque eu sou feita pro amor
da cabeça aos pés
e não faço outra coisa
do que me doar

7.8.07

uma vida por minuto

um minuto de silêncio pra cada decepção sentida.
um minuto de sorriso pra cada emoção descoberta.
um minuto de alívio pra cada amigo reencontrado.
um minuto de horizonte pra cada amor perdido.
um minuto de travesseiro pra cada encontro desmarcado.
um minuto de taquicardia pra cada telefonema esperado.
um minuto de suspiro pra cada cortesia inesperada.
um minuto de alegria pra cada centavo economizado.
um minuto de gargalhadas pra cada tombo levado.
um minuto de aspereza pra cada traição desvendada.
um minuto de poesia pra cada beijo roubado.
um minuto de tesão pra cada olhar descarado.
e já se foram 12 minutos de vida
vivida e não inventada.
cada dia: 1.440 minutos.
todos seus para criá-los.

18.5.07

mute

às vezes é preciso falar apenas esvaziar a mente cheia de dúvidas e mistérios.
é preciso falar em código para que o óbvio não transpareça aos cínicos.
é preciso falar para aceitar o que é negado - em vão.
falar para que a força do verbo recrie o mundo.
falo menos do que calo, falo menos do que vejo, falo apesar.
e quando cessa a fala, o silêncio me devolve o eco.
no avesso dessas palavras é que me apego, que me pacifico.
falo. mas é o silêncio que me faz compreender.


(quem me vê assim cantando...)

24.4.07

permanência

houve um tempo
(quando? ontem?)
em que era fácil dizer:
amanhã
era fácil contar os dias
em noites de diversão,
tardes de tédio e lojas,
manhãs de aulas e pátios.
não se marcavam as horas
era sempre cedo demais
sempre lento demais
era sempre breve demais.
hoje ainda pensei nesse tempo
porque me preparo para esquecê-lo
não como quem apaga a memória
mas como quem se dá conta
de que o tempo
só passa lá fora.
aqui dentro
é sempre.

23.4.07

queria ter escrito

dentro de mim
o vazio inventa.

(marcos caiado - www.marcoscaiado.blogger.com.br)

17.4.07

doçuras

doces olhos

doces olhos vazios
a se encantarem de sombras
penumbras mal-afamadas
recantos de sonhos
olhos transparentes
a chorar saudades não vividas
amores inexistentes
cavaleiros displicentes
olhos de olhar lonjuras
mares, fogueiras, vendavais
olhos que se contemplam,
olhos de nunca mais

...................................................................................................
doces ombros

ombros frágeis
para tanta tortura
carregar a própria essência
sem disfarce ou impostura
lanhado,
açoitado,
lombo de escravo
fujão
mas ombros redondos
de carregar colares
decotes e afagos
ombros sãos
curvados, macios
róseos cabides
ombros de solidão.

15.4.07

... essa minha criança...

Someone to watch over me
(Ella Fitzgerald)

There's a somebody I'm longin' to see
I hope that he,
turns out to be
Someone who'll watch over me

I'm a little lamb
who's lost in the wood
I know I could,
always be good
To one who'll watch over me

Although he may not
be the man some
Girls think of as handsome
To my heart
he carries the key

Won't you tell him
please to put on some speed
Follow my lead,
oh, how I need
Someone to watch over me

Won't you tell him please
to put on some speed
Follow my lead,
oh, how I need
Someone to watch over me
Someone to watch over me



6.4.07

o feijão e o sonho

o meu pão de cada dia
me será cobrado em suor e suco gástrico.

e o meu sonho de cada dia,
em outra mínima desatenção.

ao final do mês terei um contracheque na mão
e um contra-senso na vida.