21.3.09

por um sol que não queime

a quem você trairia para obter o que deseja?
a quem você mentiria para chegar onde almeja?
que pequena morte você corteja,
ao persisitir em tamanha cegueira?
nem tudo nos vem de bandeja,
mesa posta, de delícias farta.
por vezes, a pão e água se conquistam
maiores certezas que ilusões tão falhas.

minha cota de malha é leve
para artilharia tão pesada.
recuo para trás das torres
erguida por pedras atiradas.
menos por medo que por estratégia,
nem por pudor ou por alma rígida,
mas porque a dor que se vê tão nítida
não será minha, mas de quem não se protege.

o que ofereço (te parece pouco?)
é um rosto limpo e uma manhã sem mácula.
um lago límpido, numa floresta clara,
onde o reflexo deste sol tão raro
encha de luz o que é a mim tão caro.

7.3.09

...

o céu está cinza azulado. o pôr-do-sol joga em tudo uma estranha luz rosada. nuvens pesadas prenunciam chuva e um vento bom torna tudo suportável. estranha sintonia entre o que está dentro de mim e o tempo.também em mim há nuvens carregadas; uma estranha luz dá a tudo uma ar de foto antiga. há prenúncio de lágrimas, mas há sempre o vento...me sinto acolhida pela semelhança. assim em cima como embaixo. tenho uma notável percepção do presente, das opções, das perdas. tudo em mim é tensão e raio e trovão não tardam. fecho as janelas, cubro os espelhos. a tempestade vai logo desabar.

6.3.09

impressionista

eu queria ocupar um espaço.
deixar marcas, digitais
(mas não cicatrizes).
queria me ver nesse espelho
feito de vontade e ousadia,
e espelhar por minha vez
o que fosse verdade.
queria as portas abertas,
por onde o vento corresse livre.
nenhum amanhã, nenhuma vaga promessa,
somente a liberdade de ser
inteira e leve.
queria pendurar
na parede da memória*
um quadro de luz e espaço.
fica aberta, então, a vontade.
ao futuro tudo é possível.
e um prego preparado
aguarda essa iluminada pintura de monet
(um outro dia?)

* by belchior

2.3.09

irmãos, é preciso coragem

eu sei que amanhã será outro dia.
sei que será um lindo dia, da mais louca alegria
que se possa imaginar.
sei que desesperar jamais, e que louco é quem me diz que não é feliz.
sei que o amor tem feito coisas
que até mesmo deus duvida,
já curou desenganados,
já fechou tanta ferida.
sei que tudo é uma questão de manter
a mente quieta, a espinha ereta
e o coração tranquilo.
sei que i've got a friend,
que eu tenho que don't worry
and be happy.
só não sei é como dar jeito
no que acontece agora
neste vácuo de momento,
nesse istmo de tempo
em que da beira do abismo
se dá o salto.

27.2.09

coração bobo

tem coisa mais irritante que ouvir o próprio coração rindo da gente?
toda noite faço promessa pra n. sra. da santa razão guiar meus passos e fazer esse indivíduo calar a boca. ele? nem tchuns. que reiva!

20.2.09

minhas tristezinhas

é difícil escrever
com uma alma tão vazia:
vazia de rumos
vazia de tudo.
(é difícil colocar em palavras
o que não se sabe descrever
nem conciliar
com tanto a fazer.)
escrevo então confusões,
meio bobas, sem sentido.
mas dizem tanto do que sinto
que mal cabem nas linhas que imprimo.
seria tão bom se eu soubesse
escrever em forma de silêncio,
e que a ausência de letras expusesse
a tinta desta caneta invisível.
veja, dispo agora essas palavras,
de todo seu arrazoado.
e no espaço vazio abaixo,
entrego a poesia da minha tristeza.

(não tenha medo. a tristeza que é lida
não contamina. nem mesmo essas, nuazinhas...
são muito puras, as coitadinhas.)





















.

13.2.09

Tonight I can write the saddest lines

(Pablo Neruda)


Tonight I can write the saddest lines.
Write, for example,'The night is shattered
and the blue stars shiver in the distance.
'The night wind revolves in the sky and sings.

Tonight I can write the saddest lines.
I loved her, and sometimes she loved me too.

Through nights like this one I held her in my arms
I kissed her again and again under the endless sky.
She loved me sometimes, and I loved her too.
How could one not have loved her great still eyes.

Tonight I can write the saddest lines.
To think that I do not have her.
To feel that I have lost her.
To hear the immense night, still more immense without her.
And the verse falls to the soul like dew to the pasture.

What does it matter that my love could not keep her.
The night is shattered and she is not with me.This is all.

In the distance someone is singing. In the distance.
My soul is not satisfied that it has lost her.
My sight searches for her as though to go to her.
My heart looks for her, and she is not with me.

The same night whitening the same trees.
We, of that time, are no longer the same.

I no longer love her, that's certain, but how I loved her.
My voice tried to find the wind to touch her hearing.

Another's. She will be another's.
Like my kisses before.Her voice. Her bright body. Her infinity eyes.

I no longer love her, that's certain, but maybe I love her.
Love is so short, forgetting is so long.

Because through nights like this one I held her in my arms
my soul is not satisfied that it has lost her.

Though this be the last pain that she makes me suffer
and these the last verses that I write for her.

http://www.youtube.com/watch?v=zXHPk-ctoYY
(entre e ouça o poema com Andy Garcia)

12.2.09

eternamente

há muito tempo, literalmente no século passado, me gritaram o nome dessa música numa boate (ainda se chamava discoteca). com um recado (não literal, minha memória não chega a tanto): toda vez que ouvir, eu vou me lembrar.
não precisa dizer que grudou que nem praga (e foi mesmo de um pestinha, com cara de bebê johnson's). daí pra frente essa música sempre teve dono.
hoje, o tal peste é um amigo.
mas aos 20 anos, nunca e sempre duram... uma vida.
e a beleza, ao contrário do tempo, não passa.


Eternamente
(
Tunay E Sergio Natureza)

Só mesmo o tempo
Pode revelar
o lado oculto das paixões
O que se foi
E o que não passará
Inesquecíveis sensações
Que sempre vão ficar
Pra nos fazer lembrar
Dos sonhos, beijos
Tantos momentos bons
Só mesmo o tempo
Vai poder provar
A eternidade das canções
A nossa música está no ar
Emocionando os corações
Pois tudo que é amor
Parece com você
Pense, lembre
Nunca vou te esquecer
Vou ter sempre você comigo
Nosso amor eu canto e cantarei
Você é tudo que eu amei na vida
Nunca vou te esquecer

quase.

já deve ter acontecido com você. num procedimento médico, odontológico. numa sessão de massagem. sei lá onde. mas todo o preparatório indica: vai doer. você se prepara, o corpo retesa, a boca trava e os dentes estalam. e... nada. não dói! ou se dói é tão pouco perto do que você esperava que... é nada.
pois é. aconteceu comigo. me preparei toda: músculos retesados - ok; dentes travados - ok; olhos bem fechados - ok; lágrimas a postos - ok; garganta pronta pra se esgoelar em último recurso - ok.
...
...(?)
... (abro um olho)
... testo com a língua, cutuco com a ponta do pé... não, nada consta.
bom, pra falar a verdade doeu um pouquinho, sim. tão rápido... passou!
você não dever estar entendendo nada, né? nem eu.
deixa pra lá.

10.2.09

coisa de gente doida

fui dar uma volta no blog. brincar de túnel do tempo. gozado, se eu invertesse e colocasse o que escrevi no começo agora, estava bom. daí começo um bate-boca infrutífero com meus botões sobre se não estou andando em círculos. bom, pode ser que eu seja tão fantástica que tenha aquela coisa atemporal dos bons escritores. rá-rá-rá! (que delícia se eu fosse mesmo assim convencida...). por outro lado fico pensando: a gente cresce, amadurece, muda, desmuda... mas nossa maneira de sentir, muda também? claro que tem umas besteiras que deixamos pra lá, roupa que nem serve mais. emoções prescritas, sentimentos com data de validade vencida, vamos jogando esse lixo fora (sinal nº 1 de que a maturidade nos ronda). mas... a guia dos sentimentos, a linhagem das emoções, os trilhos desse trem... será que se alteram? limpe o supérfluo e me diga: a sensação do primeiro beijo numa pessoa desejada é diferente aos 20, aos 50? o frio na barriga é mais... adulto?
acho que todo mundo muda, sim. mas no raso, somos o que fomos. mais burilados.
(aí entra o caetano implícito e tasca logo um ou não...)

6.2.09

não há o que não haja.

o mundo é mesmo muito doido e
a vida, sempre uma novidade.
uma amiga, risadas, colo e choro...
pronto!
o mundo pra mim agora
dá pé.
de novo.

(grazie, bella)

5.2.09

ao que não é visto

e tem essa outra que não sabe onde põe as mãos
quando as coloca sobre a mesa
e que chora no velório das memórias,
essa outra que se disfarça e mastiga as lágrimas
(porque é feio chorar em público)
e as engole, até que voltem em refluxo.
essa outra sem compostura,
que se envergonha das palavras ditas
porque esperadas,
que guarda aquelas que derreteriam as geleiras
apenas por ser o frio gelo guardião do medo alheio.
essa outra que olha tanto
que vezes sem conta teve seus olhos vendados
por serem tão invasivos e intensos
quanto as tolas armas nucleares.
essa outra que não aparece,
a não ser como fazem as almas penadas,
para os que têm o misterioso dom
de enxergar
uma tão outra realidade.

o último cigarro


sobre a mesa branca, um cinzeiro pousa
à espera da próxima cinza fumada em silêncio.
um cigarro que ocupa a mão e a mente,
na noite passada entre uísques vazios.
por mais que pareça trágico, não me angustia.
aquele cinzeiro ainda vai achar companhia.
retratos de vida roubados ao tempo,
pequenas janelas de alegria.
e as mãos que se ocupam em fabricar cinzas de pensamentos
ainda vão estar ocupadas, construindo sentimentos.

13.11.08

pequenas coisas

se eu pudesse parar um pouco

descer um pouco

sorrir um pouco

aliviada

se eu pudesse escrever recados

com destinatários

se eu pudesse sair na chuva

escolher a fruta

esconder as farpas

estender as roupas

lavar os vidros

das pequenas janelas

se eu pudesse sussurrar encantos

revolver a terra

plantar meu fado

recolher as pérolas

e amar os porcos

se eu pudesse perdoar um pouco

descansar um pouco

dormir de leve

acordar baixinho

devagarinho

e para sempre.

só um pouco.

12.10.08

quando eu não estava olhando

a paisagem mudou, era já outro cenário.
eu não vi.
as notas eram outras, como eram novas as vozes.
cabelos brancos, uma ligeira barriguinha.
eu não vi. onde eu estava?
foi como perder aquela parte essencial do filme, a hora da revelação:
quem matou odete roitman?
agora, o frio nos ossos
me cantarola chico buarque...
já passou, já passou...
e foi justamente
quando eu não estava olhando.

28.7.08

ao senhor dos jardins


ensina-me, senhor, a viver a vida das borboletas,
a ter a calma paciência das lagartas que se enrolam
voluntárias em casulos de escuridão.
proteja-me da ânsia pelo movimento
que me impeça de cumprir o tempo da mutação.
permita, então, que eu perceba o soar da hora
de romper liames e aceitar minhas asas em sua completa extensão.
guia-me pelo mundo das cores,
provê-me da alegria da impermanência
que será - e só ela - meu alimento sagrado.
ensina-me, com teu amor, a viver a intensa beleza do efêmero,
a fartar-me da delícia de cada momento,
como se fossem todos eles um sinal de eternidade.
e quando se acabe este dia, leve e tranquilo como anoitecer ou
em dor e medo como o fim do amor,
dá-me a sabedoria de abandonar as velhas asas,
descer ao solo e,
humildemente, retomar o caminho da lagarta,
até que o cansaço me conduza de novo ao casulo
onde a vida trabalha silenciosa e obscura
para entregar-me ainda outra vez
as asas da plenitude.

pintados

olho para o armário
fechado
vermelho, brilhante,
mogno aviltado.
guarda roupas, sapatos,
contas, cabides vazios
dependurados.
como eu guardo
máscaras, sorrisos,
silêncio, carinhos
não levados.
eu e o armário,
fechados, guardamos o que nos é de direito.
ele - madeira
eu - madura
nós dois - pintados.
guardo no armário minhas tralhas.
e eu, são de quem as que guardo?

19.4.08

dor antiga

pra que sofrer
por uma dor que não vai
parar de doer

falar mal pra quê?
chorar não faz sentido
é uma coisa antiga
vai parar pra sofrer, por quê?


fica lá, fica lá
e não há o que fazer
é uma dor, só uma dor
então deixa doer

vai chegar um dia
em que a dor vai cansar de ficar
nessa casa vazia,
sem par,
vai cansar de doer sozinha

nesse dia, ela vai abrir a porta
vai deixar a ferida morta
vai virar cicatriz,
que importa
se agora ela dói tão quieta
amanhã vai deixar deserta
a paisagem do meu coração

e a chuva de pranto
que lava tudo
no meu chão vai penetrar bem fundo
e fazer brotar um jardim

me perdoa, então, mestre Cartola,
se suas rosas não falam
as minhas, elas não se calam
e vão falar de poesia e amanhã

mas hoje eu apenas me digo
nem toda dor é castigo
é uma dor, só uma dor
então deixa doer .